Crítica O Que Terá Acontecido a Baby Jane: A Beleza Arrancada da Maldade Nostálgica

Drops Mag: "Um meticuloso acerto em todos os sentidos. Os diretores arrancam da maldade escura e da morbidez acachapante uma beleza nostálgica e amorosa que chegam a comover".

Claudio Botelho e Charles Moeller são os reis dos musicais no eixo Rio-São Paulo.  Realizaram a grande maioria das melhores montagens dos últimos quinze anos. Algumas vezes (e sempre acertando em todas elas) incursionaram pela seara da peça dramática (usualmente com doses de comédia) a exemplo das ótimas “Gloriosa” (com Marília Pêra) e “Judy Garland – O Fim do Arco-íris” (com Cláudia Netto). Agora resolveram trazer para o palco o conto macabro de Henry Farrell que se transformou no antológico filme de 1962 com Bette Davis e Joan Crawford. “O Que Terá Acontecido A Baby Jane?” é mais uma bem sucedida montagem destes grandes diretores que se esmeram em esmiuçar a alma feminina e suas nebulosidades e belezas.

Duas irmãs já idosas, niilistas, amarguradas e  mergulhadas na presunção e no passado glamouroso de ambas, tendo que conviver numa casa sombria repleta de recalques, mágoas e intrigas.

Eva Wilma encarna Jane,  uma mulher embebida na mais terrível inveja da própria irmã. A grande atriz consegue incorporar novas facetas à personagem (interpretada com tanta maestria por Bette Davis). Wilma adiciona oportuna comicidade, malandragem e hilariante maldade na medida certa de uma atriz que sabe o que faz no palco.

Nicette Bruno tem papel mais contido, na pele de Blanche, a mulher presa a uma cadeira-de-rodas às voltas com a dominação fraterna. Mesmo sem poder movimentar-se pelo palco, Nicette consegue transmutar toda a exasperação de sua Blanche através dos olhares e um registro carismático de atuação que a atriz domina muito bem. Ao final, sua personagem tem a chance de brilhar ainda mais numa cena-reveladora atordoante.

Sophia Valverde é uma surpresa empolgante na pele de Jane quando criança.

Licurgo Espínola tem aquela voz poderosa compatível para uma montagem de época como esta. O poder das vozes é trabalhado de forma exemplar pelos diretores. Posso estar enganado, mas a potência de algumas vozes (principalmente a de Espínola) me remeteu positivamente às boas dublagens de filmes míticos em matinês de sessão da tarde. A poderosa Teca Pereira interpreta a empregada de pulso firme e cheia de insubmissão. Um trabalho digno de veterana, calçado no mesmo nível das duas protagonistas.

Juliana Rolim personifica Jane na fase intermediária e faz um trabalho notável também de equilíbrio vocal para ficar compatível com o registro de Eva Wilma.

A cenografia de Rogério Falcão cria uma ambientação nostálgica e amedrontante, alcançando um resultado de alto nível. Carol Lobato repete mais uma vez sua verve criativa ao entregar figurinos irrepreensíveis, fazendo o espectador viajar no tempo.

A direção de Charles Moeller e Claudio Botelho alcança momentos majestosos. A dupla sabe dosar muito bem todos os ingredientes necessários à qualidade de uma montagem como esta. Além de serem hábeis e ágeis na condução do elenco (arrancando atuações formidáveis) eles ainda trazem sua expertise dos grandes musicais, incorporando  fluidez e dinamismo na narrativa, através das inserções (flashbacks) do passado das personagens. Há cenas que remetem a “Gypsy” e às crianças-prodígio da era de ouro de Hollywood dominadas pela família mercenária.

“O Que Terá Acontecido A Baby Jane?” é uma montagem primorosa, recheada de detalhes e referências que só diretores sensíveis e antenados (e com a bagagem brilhante que carregam) como Moeller & Botelho saberiam esmiuçar. Um meticuloso acerto em todos os sentidos. Os diretores arrancam da maldade escura e da morbidez acachapante uma beleza nostálgica e amorosa que chegam a comover.
Eis aqui dois apaixonados pelos musicais e pelo palco que também sabem homenagear – e com extrema nobreza – o cinema.

Por Paulo Netto | Drops Mag.

22/08/2016.



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