Crítica Nine Um Musical Felliniano: "Os Reis nunca perdem a majestade"

Confira a primeira crítica de Nine - Um Musical Felliniano no Rio, por Rodrigo Monteiro (Site Crítica Teatral)

Site Crítica Teatral: 10/10/2015.

Os Reis nunca perdem a majestade

“Nine – Um musical felliniano” estreou ontem no Rio de Janeiro, no Teatro Clara Nunes, na Gávea. Ele lembra os motivos pelos quais Charles Möeller e Cláudio Botelho são considerados os reis dos musicais no Brasil. Em sua trigésima quinta produção no gênero, nessa é possível mais uma vez identificar o talento da dupla. O alto padrão estético, mas também o equilíbrio notório de seus elementos são facilmente visíveis. A peça é a versão musical do filme “8 ½”, do italiano Federico Fellini (1920-1993), que foi lançado em 1963 e consagrou seu diretor como um dos mais respeitados do mundo. Na versão brasileira, além de Möeller e de Botelho, destacam-se as coreografias de Alonso Barros e a iluminação de Paulo César de Medeiros. Totia Meirelles, Malu Rodrigues e Myra Ruiz brilham, mas os maiores méritos são de Nicola Lama, o grande protagonista. “Nine” fica em cartaz até 8 de novembro. Vale a pena ver!

Adaptação de “8 ½“, de Federico Fellini
O musical “Nine” estreou originariamente na Broadway em 1982, com roteiro de Arthur Kopit e canções de Maury Yeston. Concorrendo com “Dreamgirls”, a produção recebeu 12 indicações ao Tony Award e levou 5 estatuetas, entre elas a de Melhor Trilha Sonora e a de Melhor Espetáculo Musical. Em 1966, Bob Fosse já havia transformado o filme “Noites de Cabíria”, de 1957, no musical “Sweet Charity”. O mesmo Fosse, em 1979, fez o filme “All that jazz”, que adaptou “8 ½“ três anos antes do lançamento de “Nine” no teatro. Em 2009, Rob Marshall assinou a versão cinematográfica de “Nine”, essa talvez a menos relevante versão dessa obra de Fellini.

Federico Fellini não assistiu a nenhuma das versões de seus filmes para musical, mas os recebeu como uma bonita homenagem. Em “8 ½“, Guido Anselmi (Marcelo Mastroianni) é um cineasta de sucesso que se encontra em bloqueio criativo diante da fadiga da vida social. A sociedade, vista a partir da teatralidade que marca a estética felliniana, empurra o protagonista para uma reflexão existencialista. Nela, ele descobre a si mesmo enquanto recupera o rastro de suas influências, o que justifica a célebre aproximação entre “8 ½” e “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Ao longo de ambos os filmes, o espectador atento há de notar que “rosebud", tanto de Kane quanto de Anselmi, é a ingenuidade da infância perdida. Em ambos, um noir e outro surrealista, a desilusão dá conta de explicar o momento atual. Ela justifica o (mesmo) fim dos personagens, bem como a visão de mundo denunciada pelos cineastas.

A versão brasileira de “Nine”
Na versão brasileira de “Nine”, Charles Möeller e Claudio Botelho acertam em reduzir ao máximo o tom existencialista da história do cineasta Guido Contini. Fellini nunca foi popular entre o grande público como o gênero musical exige das (grandes) produções teatrais desse tipo. “8 ½“, que recebeu diversos prêmios e é considerado um dos melhores filmes da história do cinema internacional, nunca teve grandes bilheterias. Nesse sentido, é bastante elogiado o modo como Möeller e como Botelho respondem às necessidades da produção e aos seus próprios anseios de oferecer uma obra esteticamente destacável para o público. Em certa medida, eles modificam aqui o tom da narrativa a fim de torná-la ainda melhor.

Se Guido Anselmi, do filme, tem uma situação, Guido Contini (Nicola Lama) tem um problema: fazer mais um filme de sucesso. Sua produtora Lili La Fleur (Totia Meireles) está em seu encalço, como também jornalistas, sua grande diva Claudia (Karen Junqueira), sua esposa Luisa (Carol Castro) e sua amante Carla (Malu Rodrigues). Muito próximo dos problemas vividos por Joe Gideon (de “All that jazz”), o modo como Fosse viu Guido Anselmi, a questão de Contini é a pressão sofrida por ele. Nesse ponto de vista, fica fácil para qualquer um do público se identificar com o personagem. Daí resulta o sucesso dessa versão.

O título “8 ½” veio do fato de que Federico Fellini já havia assinado oito longas-metragens e mais um em parceria com Alberto Lattuada. Tão autobiográfico como todos os demais, esse filme também tem muito de sua história pessoal, mas não se pode dizer que Guido Anselmi seja Fellini. Porém, sem dúvida, Guido Contini não o é. E esse é outro valor do musical “Nine”. Segundo os autores, o título do musical surgiu da conclusão de que a música seria a metade faltante para 8 ½ se tornar 9. Em outras palavras, “Nine” é uma homenagem a Fellini para quem conhece sua obra, mas é um espetáculo totalmente aprazível para quem não conhece o cineasta. Excelente!

Os méritos dessa montagem
É bastante bonito de se ver o modo como Charles Möeller e como Claudio Botelho investem em elementos simples, mas atingem o preciosismo. Não há grandes cenários além de uma escada vazada de Rogério Falcão que domina o palco, com várias entradas. A luz de Paulo César de Medeiros, sem nenhum efeito miraculoso, aproveita as menores participações para destacar o quadro. O figurino de Lino Villaventura e o visagismo de Beto Carramanhos também atuam no âmbito das sutilezas e fazem do pouco muito. As coreografias de Alonso Barros, principalmente nos números de individuais de Nicola Lama, situam o protagonista no seu lugar de direito. De forma brilhante, elas oferecem a ele a força necessária para o ator defender a história de seu personagem. Muito simples, “Nine” atinge altos resultados estéticos sem artifícios, mas com inteligência, técnica e talento.

Com muito sucesso, a carismática Carol Castro (a esposa Luisa) investe em suas cenas mais dramáticas, compensando o desgaste do seu pequeno número musical. Karen Junqueira (a diva Claudia), no exato oposto, tira alguma vantagem do seu solo com méritos. Sônia Clara (a mãe), com uma figura firme, cumpre seu papel modestamente. Letícia Birkheuer (a crítica Stephanie) sobra constrangedoramente tanto na interpretação, como no canto. Em “Nine”, que também teve ótimas contribuições do elenco de apoio, brilham as exuberantes Totia Meireles (a produtora Lili La Fleur), Malu Rodrigues (a amante Carla) e Myra Ruiz (Sarraghina, o papel mais conhecido desse musical). Na sessão de estreia do Rio, essas três últimas receberam justas ovações em cena aberta. Aplausos efusivos!

Nicola Lama em excelente trabalho
Nicola Lama vence com galhardia o enorme desafio ao lado da direção musical e regência de Paulo Nogueira. “Nine”, tal qual “Como vencer na vida sem fazer força”, que Charles Möeller e Claudio Botelho assinaram há dois anos, não é um standard no gênero. Isso significa que, além de ser narrada, a história precisa ser defendida. É ótimo reparar o modo como Lama cresce cena após cena, trilhando com o público os tortuosos caminhos de seu anti-herói até o fim. Com carisma, com técnica, com elegância e preparo, seu Guido Contini foge do estereótipo italiano, do homem mulherengo e do cineasta “celebridade”. Em seu lugar, surge um homem humano, afetivo, próximo com o qual o público se identifica e por quem se encanta.

Sai-se do Teatro Clara Nunes, em que palco e plateia estão bastante próximos em benefício dessa montagem, cantando as canções apresentadas. Dentre vários, esse também é sinal de que houve sucesso em mais esse musical. Quanto a Charles Möeller e a Cláudio Botelho, reis nunca perdem a majestade.



Por Rodrigo Monteiro.




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