Entrevista de Claudio Botelho a Dirceu Alves Jr no Blog Na Plateia, da Veja São Paulo

Um Nine rodriguiano e o musical brasileiro: “precisamos de compositores. O resto já temos”

 

Dirceu Alves Jr. – Na Plateia

Você pode gostar ou não, mas uma coisa é inegável: ao lado de Charles Möeller, Claudio Botelho deu outra cara e visibilidade ao teatro brasileiro nas últimas duas décadas. “Nine, Um Musical Felliniano” é o novo espetáculo da dupla e estreia no sábado (23) no Teatro Porto Seguro. Livremente inspirada no filme “8 e ½”, de Federico Fellini, o musical de Maury Yeston e Arthur Kopit, levado aos cinemas em 2009, enfoca o cineasta Guido Contini (interpretado por Nicola Lama), que atravessa uma crise criativa e anda saturado das mulheres de sua vida. No elenco estão as atrizes Beatriz Segall, Totia Meireles, Malu Rodrigues, Carol Castro, Letícia Birkheuer, Mayana Moura e Myra Ruiz. O resto, agora, é com o Claudio. Aliás, ele também está em cartaz com “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” no Teatro Cetip, em Pinheiros, até o dia 31.



“Nine, Um Musical Felliniano” vem carregado de referências. Tem o espetáculo original, o filme tão recente ainda e, claro, o “8 e ½”, de Fellini. Na versão de vocês surge ainda a peça “Vestido de Noiva”, do Nelson Rodrigues, não? De que forma cada uma dessas referências foram usadas?

A versão brasileira de “Nine” segue o original de 1982, de autoria de Arthur Koppit, baseado no filme de Fellini. Mas só montamos musicais da Broadway quando recebemos licença para colocar em cena uma visão pessoal e não trabalhamos com réplicas. Então, trazemos a peça para perto do espectador brasileiro. Isso está nos diálogos, nas adaptações de alguns personagens, no corte de referências à situações e piadas que são de interesse único ao público americano. Neste caso, além dos óbvios elementos fellinianos, muitos resultam “rodriguianos” para o espectador brasileiro. As traições, as vinganças do amor, as mentiras do macho latino, o clima de sexo proibido e mesmo as referências à religião estão lá. A sensualidade de Guido ligada ao proibido, ao sagrado, ao pecado, a famosa cena onde ele veste sua amante de freira para fazer amor com ela, enfim, é o “Nine” como ele é. Naturalmente não cairíamos no patético de adaptar a peça para o Brasil geograficamente. O spa de águas termais em Veneza não viraria um hotel em Caxambu, mas nem por isso deixamos de incluir signos que nosso público vai entender e sentir na obra universal, sem precisarmos regionalizar um clássico.

 

Você voltou ao palco. O ator está em cartaz com “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”. De que formou isso somou para o criador, diretor e produtor de “Nine”?

Tenho me permitido o prazer de cantar, que, entre todas as atividades que faço no teatro, é a que mais gosto. Fiz 50 anos e acho que posso, dentro de meus limites e quando sinto que sou apropriado para um personagem, me colocar em cena e também viver a relação diária com a plateia. Soma muito ao meu trabalho como diretor e produtor, pois eu me sinto muito mais atento ao que pode agradar a plateia, especialmente ao ritmo que um espetáculo deve ter, as opções de andamento das canções, os pequenos truques que podemos nos permitir para segurar o público mesmo em números mais difíceis do ponto de vista musical. Há uns anos faço “Chico 90”  e vejo o que leva a plateia ao delírio, assim como sei exatamente quando eles perdem o interesse e começam a mandar WhatsApp para os amigos na cara dos atores. O maior inimigo do entretenimento ao vivo são esses aplicativos. Se você deixar a peça correr solta e qualquer “barriga” aparecer na cena, o povo vai para os aplicativos e nem olha mais para o palco.



Talvez você e o Charles tenham sido os primeiros diretores a levarem atores consagrados – e sem ligação com os musicais – para o gênero. Agora é a vez de Beatriz Segall. De que forma você vê essa abertura de mercado e possibilidade artística para esses atores?

Creio que, se podemos falar sem modéstia, se temos um mérito nesta carreira de 25 anos dedicados intensamente e sem concessões ao teatro musical é ter conseguido lançar uma série de atores/cantores. Kiara Sasso, Alessandra Maestrini, Gottsha, Sabrina Korgut, Daniel Boaventura, Pierre Baitelli, Letícia Colin. Alessandra Verney e muitos outros jovens fazem parte dessa lista. E também de termos trazido para a cena do musical alguns nomes que o público nem supunha que poderia cantar ou dançar, como foi o caso de José Mayer, Luiz Fernando Guimarães, Gregorio Duvivier e Maria Clara Gueiros, por exemplo. No ano passado, tivemos a honra absoluta de produzir e dirigir o espetáculo de estreia de Renato Aragão no teatro. Ele nunca tinha pisado em um palco de teatro antes e foi conosco que o personagem Didi entrou em cena pela primeira vez. Agora, temos em “Nine” um elenco que traz desde uma criança de oito anos até uma das mais consagradas atrizes brasileiras, Beatriz Segall. Aos 88 anos, ela entra em cena estreando com orquestra, coro e danças, o que é, para nós, uma enorme emoção. E tudo com uma dedicação tremenda. A Beatriz é a cereja no topo do bolo de “Nine”.

 

O Nicola Lama é o único homem em um elenco repleto de mulheres. Como é administrar uma turma feminina tão grande, cada uma com suas intensidades e personalidades distintas, estando vocês, homens, em minoria?

Um dia desses, comentei que a quantidade de mulheres talentosas em nosso meio e capazes de fazer o que o teatro musical exige – cantar, dançar e representar – é avassaladoramente maior que a quantidade de homens. Até temos homens que cantam e são bons bailarinos, mas atores… Gente capaz de fazer os grandes personagens, que são feitos de falas e de enredo, não só de acertar as notas e cantar bem? Isso é muito complicado… De modo que lidar com mulheres é nossa vida. De Marília Pêra a Claudia Raia, passando por Bibi Ferreira, temos montado espetáculos em que as mulheres são o centro, a luz, a razão da história. Somos mesmo devotos das grandes divas dos musicais, desde Judy Garland, que é, ao lado de Fred Astaire, a grande inspiração de minha carreira, até Ute Lemper. Mas, realmente, muita mulher junta dá trabalho, sim.



Como é a responsabilidade de criar uma direção musical tendo inevitavelmente na cabeça as canções de Nito Rota para Fellini? É uma inspiração a mais ou dá medo?

Olha, o caso de “Nine” é um fato consumado. As canções de Maury Yeston são tão sensacionais, ganharam Tony de melhor “música e letra” e foram aprovadas pelo próprio Fellini. Ele acompanhou a adaptação de seu filme para musical e esteve junto nos workshops. Minha função é fazer com que tudo soe bem em português, que as letras sejam acessíveis ao público e, mais que isso, que emocionem. Nino Rota é, por acaso, meu maior caso de amor com a música do cinema. Tenho obsessão por seu trabalho e, além das trilhas sonoras que ele criou, sou um apaixonado por sua obra erudita. Os prelúdios para piano, os concertos, as peças de música de câmara, tudo. Ele não é um compositor de teatro, mas escreveu diversas canções e, quem sabe, um dia não conseguimos montar um musical com elas.

 

A diretora musical paulista Fernanda Maia falou em entrevista para o blog que o musical brasileiro ainda não encontrou um jeito próprio de cantar, que existe uma espécie de influência do jeito americano. O que você acha disso?

Não conheço esta moça. Também não sei que peças ela viu. Pode ser que haja algum musical com sotaque “americano”, mas isso não é nada parecido com o que fazemos e nem com o que eu conheço. Muita gente fala muita coisa, e mais gente ainda fala de coisas sobre as quais não tem a mais vaga noção. Quem resistir a cinco minutos de conversa sobre a maneira de cantar de Ethel Merman e os motivos pelos quais o canto no teatro evoluiu do semioperístico para o quase natural desde os anos 1930 até hoje, eu até aceito que “ache” coisas, mas sinceramente eu duvido que seja viável esse papo.



E como seria um jeito brasileiro de cantar em teatro?

Basta comprar um ingresso e ver Bibi Ferreira cantar desde Chiquinha Gonzaga a “My Fair Lady”, coisa que ela faz há mais de 50 anos. Ou, quem sabe, ouvir Marília Pêra? Talvez o Marco Nanini em “O Corsário do Rei”, de Chico Buarque.
Mayana Moura e Nicola Lama: "Nine" estreia em São Paulo em 23 de maio



O que vocês artistas e produtores precisam buscar para o musical brasileiro ter realmente uma personalidade própria?

Precisamos de compositores. O resto já temos. Sem compositor e música original, não existe musical brasileiro. Nem de qualquer país. O que faz um  musical ter uma pátria é quando ele tem um autor e também alguém que escreva músicas. Infelizmente, tirando o Ed Motta, que fez “7, O Musical”, e Carlos Lyra, que tem feito investidas de enorme qualidade em um ou outro espetáculo, temos  temos de viver na saudade de Chico Buarque e Edu Lobo, O último trabalho deles foi “Cambaio” e lá se vão quinze anos. Ninguém escreve para o palco.



Temos uma avalanche de musicais biográficos. Como você vê essa febre? É uma facilidade ou uma acomodação dos produtores?

Isto é coisa de gente que viu no teatro musical uma maneira de fazer dinheiro fácil. Nenhum destes musicais foi idealizado por artistas, todos são frutos da cabeça de empresários, gente que nunca leu nem um Nelson Rodrigues e que se sente na condição de criar “máximas” sobre como devem ou não devem ser os espetáculos do teatro brasileiro. O único musical biográfico que vi e que era de primeira linha até hoje se chama “Somos Irmãs”, sobre a vida da Linda e da Dircinha Batista, com direção do Ney Matogrosso e protagonizado por Nicette Bruno e Suely Franco. Ali havia dramaturgia, teatro e música de verdade. Esse lixão que anda por ai contando vida de artista e botando nome de teatro musical é aquilo que, no meu tempo, se chamava de caça-níquel. Daqui uns três anos acabarão os artistas “biografáveis” e aí vão tentar inventar outro factoide. Também não acredito no suposto talento de gente que “faz o fulano igualzinho”, “você jura que é ele”. Adoro imitadores, mas gosto de vê-los no programa do Raul Gil. Lá, é divertido e não usa dinheiro de patrocínio, nem finge que é sério.

 

Fonte: Dirceu Alves Jr. – Na Plateia (Veja São Paulo) - 15/05/2015.



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