Rio Show (O Globo): Hoje tem marmelada!

Renato Aragão e Dedé Santana estrelam o musical Os saltimbancos Trapalhões, na Cidade das Artes

3 out 2014 - O Globo - THIAGO LOUREIRO

O cinema vai ao teatro

Filme com Didi e Dedé e trilha de Chico Buarque vira musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, na Cidade das Artes


Em 1981, o quarteto Didi, Dedé, Mussum e Zacarias levava mais uma vez o público brasileiro às gargalhadas. O filme da vez era “Os saltimbancos trapalhões”, fenômeno de bilheteria na época, com mais de cinco milhões de espectadores (até hoje, é o oitavo longa nacional de maior bilheteria). Agora, a história chega ao teatro pelas mãos de Charles Möeller e Claudio Botelho, especialistas em grandes produções musicais. A peça, com trilha sonora de Chico Buarque, marca a estreia de Renato Aragão nos palcos. A partir de hoje, ele contracena com seu companheiro de trapalhadas Dedé Santana na Cidade das Artes.
 
— Fiquei assustado quando recebi o convite do Charles e do Claudio, pois sempre tive vontade de fazer teatro, mas nunca tinha tempo — conta Renato, que é só elogios à adaptação para o palco. 
 
A estreia na ribalta com 79 anos de idade e quase 50 de carreira é em grande estilo. A superprodução tem, em cena, 35 pessoas: 20 atores, oito artistas de circo e sete músicos. Ao todo, a equipe tem 120 profissionais, entre produção, coreografia, figurino, cenário, técnicos... Números grandiosos para ocupar o também enorme palco (a boca de cena tem 11m de altura por 24m de largura) da Grande Sala da Cidade das Artes, que foi transformado num picadeiro — como mostra a foto ao lado. 
 
Aos que estranham o fato de ter um circo no “Saltimbancos” de Chico Buarque, cabe aqui uma explicação: o musical levado aos palcos pelo compositor nos anos 70 — e que virou um clássico infantil encenado até hoje — é inspirado em “Os músicos de Bremem”, dos Irmãos Grimm. O filme dos Trapalhões também, só que, em vez de bichos que fogem de seus donos malvados, Didi, Dedé & cia. são artistas de circo explorados pelo patrão. 
 
O texto de Möeller repete alguns elementos do filme, mas a plateia vai se deparar com uma história modificada e personagens diferentes. 
 
— Tive liberdade total e mantive apenas alguns personagens e situações do filme — conta.



Um exemplo desta mudança é a vilã Tigrana, interpretada por Adriana Garambone, que tem um papel fundamental na trama. A atriz, inclusive, diz que os engraçados erros de português da personagem (que, chama o Barão de Barãosis, por exemplo) são “uma sutil homenagem a Mussum e Zacarias". Outros personagens novos que merecem destaque são a vilã Zorastra (Ada Chaseliov) e o casal Pedro (Nicolas Prattes) e Ana/João, interpretada por Lívian Aragão, filha de Renato, de 15 anos. Os dois, aliás, são namorados na vida real. O clima família não termina por aí: Nicolas é filho de Giselle Prattes, a mocinha da história.

Eles são apontados por Charles Möeller como essenciais na composição do espetáculo:

— A bíblia do musical é ter os mocinhos, os vilões e o casal romântico que vive um amor impossível, mas que termina junto no fim. 



Outra mudança marcante acontece com os personagens Didi e Dedé. Não haverá no palco um Renato Aragão cantando e dançando freneticamente, muito menos subindo em mastros. Será uma atuação bem mais contida.

— Tomei cuidado com ele, assim como com todas as pessoas do elenco, mas estou confiante. Ele tem muita força — conta o diretor.

A preocupação se justifica, pois em março o ator sofreu um infarto e foi submetido a uma angioplastia. Mas, segundo o próprio Renato, ainda há muita lenha para queimar.


 
— Para mim, aquilo foi um susto e já está resolvido. Os médicos até me deram mais 70 anos de vida, mas aí eu disse: “É muito! Dá metade para quem precisa” — brinca. 
 
Se a história sofreu alterações consideráveis, a trilha sonora continua a mesma. Na época do filme, Chico Buarque criou cinco canções, adaptou outras duas da peça e manteve “História de um gata” e “Minha canção”. 
 
— Usamos todas a músicas do filme, mas com arranjos diferentes, criados pelo maestro Marcelo Castro — esclarece o diretor musical Claudio Botelho, responsável por dar outra conotação às músicas. — No cinema, estamos diante de videoclipes, mas aqui nós usamos as canções para fazer a história avançar. 
 
Os fãs dos Trapalhões também verão em cena Dedé Santana, que participa pela primeira vez de um musical. Mas o picadeiro não é novidade para ele, que foi criado em um circo e diz ter motivos de sobra para festejar a nova parceria com Renato e cia. 
 
— Tudo me impressiona nesta produção. Afinal, sou nascido e criado na barraca de circo do meu pai, um circo pobre, de lona furada, mas que para mim era o mais rico do mundo, porque, naquele momento, eu estava com a minha família — conta um emocionado Dedé, feliz também por reviver seu personagem ao lado do colega. — Quando o Renato me convidou, topei na hora. Disse a ele que nem precisava ter perguntado nada. 
 
Além de Dedé, o elenco conta com o reforço de Roberto Guilherme, conhecido do público principalmente pelo bigodudo Sargento Pincel de “Os Trapalhões”, que agora vive o poderoso Barão. Figura constante nas últimas produções de Renato para o cinema e a televisão, sua filha Lívian Aragão também marca presença. 
 
— A escalação não foi minha, mas foram me ouvindo. Eu sugeri que, além de Guilherme, Dedé e Lívian, colocássemos o Tadeu (Mello), o Tatá da “Turma do Didi", para completar a turma para uma volta por cima — diz Renato, que não poupa elogios ao restante do elenco. — Temos um time de primeira aqui. E, entre nós, não existe número dois. 
 
Se um dos comediantes mais queridos (quiçá o mais!) do público brasileiro é só elogios ao seus colegas de elenco, o clima nos bastidores da Cidade das Artes, em contrapartida, é de total admiração por Renato: todos estão felizes por dividir o palco com o ícone pop. 
 
— Poderia dizer que é um sonho sendo realizado, mas não é um sonho porque nunca cogitei ter esta oportunidade. Sou um fã tão aguerrido que jamais imaginei cruzar com ele na vida — diz Claudio Botelho.

 

 A maior parte do elenco começou a ensaiar três semanas antes de Renato e Dedé. Só quando as coisas estavam mais encaminhadas, eles entraram em cena. Mesmo com o texto na ponta da língua, não faltaram cacos que faziam todos em cena rirem.

— O Renato chegou preparado, já sabendo todo o texto. Então, quando ele entrou, a peça já aconteceu, o que me emocionou muito. Chorei que nem criança — lembra Adriana Garambone.

Entretanto, o discurso mais emocionado com esta reunião no palco parece ser o de seu velho companheiro de cena.

— Meu maior medo era terminar meus dias separado dele. Eu não queria isso, afinal, nós começamos juntos, como Dedé e Didi, e batalhamos muito para que desse certo. Para mim, está sendo uma glória — conta Dedé Santana.

Já que os dois estão felizes e satisfeitos, apesar da agenda cheia de ambos, não custa nada sonhar com uma futura reedição no teatro, talvez em outra adaptação. Perguntados, separadamente, quais filmes dos Trapalhões teriam potencial para virar um musical, tanto Renato quanto Dedé deram a mesma resposta: “Só Charles Möeller pode responder.” E aí, Charles?

—Todos os roteiros são propícios para musicais, pois o enredo é sempre muito bem amarrado, com mocinho, vilão, aventuras e trilha. Mas destacaria “Bonga, o vagabundo” — sugere o diretor.

Sendo assim, só nos resta esperar. Vontade, saúde e disposição há de sobra para a trupe, agora só falta um espaço na agenda. Aguarde e confie.



ADRIANA GARAMBONE, TIGRANA

A engraçada vilã sonha em ir para Las Vegas. Domadora, ela dopa os leões para eles ficarem mansos. Com três metros de comprimento, cada um dos três animais cenográficos é manipulado por dois atores.



ADA CHASELIOV, ZORASTRA

A atriz está em sua nona parceria com os diretores. Participou, inclusive, do primeiro musical da dupla, “As malvadas”, de 1997. Neste espetáculo, é má novamente: interpreta uma vidente trambiqueira.



NICOLA LAMA, ASSIS SATÃ

O mercenário mágico, parceiro da Tigrana nos planos contra Didi e cia., é interpretado por Nicola Lama, que já trabalhou com Möeller e Botelho em “O mágico de Oz”. No filme, o papel era de Eduardo Conde.



GISELLE PRATTES, KARINA

Uma das principais apostas dos diretores, a atriz estrela pela primeira vez um musical da dupla. Mocinha da trama, fez parte do elenco de “Para sempre Abba”. É mãe (na vida real!) do ator Nicolas Prattes.



DEDÉ SANTANA, DEDÉ

O ator está se sentindo em casa: seu pai tinha um circo . “Um circo pobre, de lona furada, mas para mim era o mais rico do mundo”. Além disso, Dedé começou a carreira no teatro, em “1900 e antigamente”.




NICOLAS PRATTES E LÍVIAN ARAGÃO, PEDRO E ANA (JOÃO)

Namorados na vida real, o casalzinho repete o romance em cena. Mas no palco eles vivem um amor proibido, atrapalhados pela vilã Zorastra, que obriga a neta Ana a se passar por menino (João).




ROBERTO GUILHERME, BARÃO


O eterno Sargento Pincel, e seu bigode inconfundível, agora é o inescrupuloso dono do circo, Barão, ou, se preferirem, “Barãosis”. O ator era do elenco de “Os Trapalhões” e “A turma do Didi”.


Fonte: Rio Show: O Globo: 03/10/14.

 

 

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