Como Vencer na Vida sem Fazer Força ou como agradar a uma plateia sem fazer força, ao mesmo tempo, resultado de muita força

Leia a crítica de Gilberto Bartholo para o novo musical da dupla Möeller & Botelho


Por Gilberto Bartholo (Ator, professor de Língua Portuguesa e de Literatura, e “rato de teatro”)

 

Finalmente, nasceu a criança!!!

Nunca demorei tanto tempo para me manifestar acerca de um trabalho da duplaCharles Möeller e Claudio Botelho, e nem eu mesmo entendo por que isso aconteceu, mas tenho as minhas desconfianças.

O impacto que o espetáculo me causou foi tão grande, que eu até tive MEDO (isso mesmo) de me sentar logo ao computador e permitir que os meus dedos fizessem um passeio pelas teclas, sem correr o risco de falar bobagens (mais do que as que estou falando agora) e/ou omitir detalhes importantes dessa memorável montagem. Também, é claro, o fator emoção poderia idealizar qualquer comentário. Foi por isso, creio, que preferi deixar a poeira voltar ao chão.

Tive a honra, o privilégio e o prazer de receber um convite para uma sessão de COMO VENCER NA VIDA SEM FAZER FORÇA, destinada a amigos e convidados, realizada no dia 11 de março, três dias após a estreia, no Teatro OI CASA GRANDE, onde a mais nova produção de Charles Möeller e Claudio Botelho está em cartaz, já com lotações esgotadas, na primeira semana, e onde ficará em exibição até 16 de junho, se não tiver a temporada prorrogada (assim espero).

Estas considerações iniciais já bastam para que a minha modesta opinião sobre o espetáculo se torne pública. Paradoxalmente ao que disse, no início deste texto, acho que nunca foi tão fácil atrever-se a uma “crítica” sobre uma peça de teatro como o foi, ou está sendo, agora, com relação a esta nova encenação do texto de Abe Burrows, Jack Weinstock e Willie Gilbert, com músicas de Frank Loesser, vertidas para a nossa língua pelo craque do “métier”, Claudio Botelho, escrito há mais de meio século e que permanece tão atual neste início de novo milênio.

A história é, aparentemente, simples e ingênua, diverte bastante o público, mas também o leva a refletir sobre diversas mazelas sociais e políticas, universais, muito bem acomodadas nas gavetas de um subtexto, ou seja, nas entrelinhas. Se todo humor é crítico, por excelência, não poderia ser diferente nesta magnífica comédia.

Nada de novo e tudo muito novo, muito bem explorado, na figura de alguns emblemáticos personagens, vividos por atores e atrizes de um nível incomparável, à altura dos que pisam palcos de outras praças consagradas por seus grandiosos espetáculos musicais, a saber:

GREGÓRIO DUVIVIER – Tenho de começar por ele. Interpreta, magistralmente, um obstinado jovem, J. Pierrepont Finch, que acredita, piamente, em livros de autoajuda e leva suas recomendações ao extremo, papel que lhe caiu como uma luva. Gregório já está consagrado como um grande ator e humorista (não perco um trabalho dele e sou seu fã número não sei qual; não importa, mas me considero o maior). Gostaria de compará-lo aos grandes atores do teatro e do cinema internacionais, mas não o consigo, simplesmente, porque Greg é incomparável. Ele é apenas Gregório Duvivier, que, por ser, ainda, muito jovem (parabéns, mais uma vez, pelo recente aniversário), graças a Deus, tem uma carreira brilhante à sua frente, a qual (pretendo viver muito ainda) tenho certeza de que vou continuar aplaudindo, inclusive em outros musicais, uma vez que este espaço, que lhe faltava, esse queridíssimo ator e amigo já conquistou.

LUIZ FERNANDO GUIMARÃES – Atualmente, meio bissexto nos palcos, tendo-se dedicado mais a entreter seu público na TV, interpreta, de forma brilhante, um inconsequente dono de uma grande empresa, o senhor J. B. Biggley, que, possivelmente, a tenha herdado (não me lembro se isso fica claro no texto), que não sabe dirigir nem a própria vida; aliás, não sabe nem o que está fazendo à frente daquela empresa e que se submete aos caprichos de uma amante burra, porém gostosa, e às determinações de uma esposa, que não aparece em cena, dominadora, autoritária e, provavelmente, não tão gostosa quanto a secretária. Junto com Gregório, Luiz Fernando arranca muitas gargalhadas da plateia, principalmente quando acrescenta alguns poucos “cacos” ao texto. Ele domina o “time” da comédia (é um grande conhecedor do assunto) e, às vezes, nem de texto precisa para provocar risos. Ele e Gregório são tão bons, que conseguem até encantar cantando, experiência nova para os dois, na qual estão sendo bem-sucedidos.

ANDRÉ LODDI - Seu personagem é um incompetente e digno representante do nepotismo, tão velho conhecido de todos os brasileiros, cuja pele reveste um talentosíssimo representante da nova geração de atores/cantores brasileiros. André, nosso velho conhecido de tantos outros musicais, sempre perfeito no que faz, vive o personagem Bud Frump, além de tudo invejoso, bajulador e falso, sobrinho da mulher do “big boss”, empregado na empresa de Biggley por exigência da esposa deste.

ADRIANA GARAMBONE – Em sua melhor interpretação, depois de GYPSY, faz a amante do chefe, incorporada aos funcionários da empresa, a despeito de sua ignorância crônica e, digamos, de seus “modos politicamente incorretos de viver numa sociedade dita normal”. Trata-se da escultural Hedy La Rue. Adriana a interpreta numa composição de personagem de fazer inveja por alguns detalhes, principalmente o timbre de voz escolhido para a personagem, não sei se pela própria atriz ou se por sugestão do grande diretor, um dos magos dos musicais, Charles Möeller, o que deve lhe exigir muito de seu talento vocal.

LETÍCIA COLIN – Essa atriz/cantora é uma das maiores descobertas da dupla Möeller & Botelho nos últimos tempos. Em O DESPERTAR DA PRIMAVERA, a despeito de não ser a protagonista da trama, valorizava a cena toda vez que dela participava, com seu talento, sua beleza e voz lindíssima. Letícia vive Rosemary Pikington, uma jovem funcionária da empresa WORLD REBIMBOCA COMPANY (o nome da empresa é um achado de Claudio Botelho, autor da versão para o Português), sonhadora e apaixonada por Finch, e que tenta ajudá-lo a conquistar terreno na firma, sem saber que tal ajuda era desnecessária, graças à astúcia e determinação do personagem de Gregório.

GOTTSHA – Penso que ela é uma espécie de talismã da dupla de diretores. É uma reencarnação de Midas. Tocou, virou sucesso. Já participou de uma quantidade infinita de musicais, também com outros diretores, e não me lembro de nenhum em que ela não me tenha encantado e levado a gritar BRAVO! e a aplaudi-la de pé. Embora sua personagem não seja de tão relevante importância na trama, Gottsha, com sua voz linda, clara, possante e afinada, domina a cena e recebe, merecidamente, aplausos em cena aberta.

ADA CHASELIOV – Outra presença constante e competente nos musicais de Charles e Claudio, Ada, mais uma vez, defende, com competência, o papel da Srta. Jones, uma típica secretária de um chefão, responsável por poupá-lo de maiores “micos”.

Além desses, merecem destaque os demais “coadjuvantes”, cada um, merecidamente, em seu lugar: Léo Wainer, Patau, Cássio Pandolfi e Luiz Nicolau. Léo e Cássio me surpreenderam, inclusive, nas coreografias.

Todos os outros doze atores/atrizes/cantores/cantoras, bailarinos/bailarinas são, também, merecedores dos maiores elogios.

Recuso-me a tecer qualquer comentário sobre a direção de Charles Möeller e a Supervisão Musical de Claudio Botelho. Quem, neste país, entende mais de musicais e põe na mesa mais talento que esses dois? São imbatíveis. Nenhum aspecto negativo na montagem de COMO VENCER NA VIDA SEM FAZER FORÇA.

Se o espetáculo é capaz de merecer os maiores elogios de todas as pessoas que assistem a ele, não é apenas pelo texto, pelas canções, pelas interpretações, pela direção... Se é um musical, espera-se ver nele belas coreografias. Essa é a área de ALONSO BARROS, que já vem trabalhando com Möeller & Botelho há alguns anos e que faz um trabalho impecável. Todos os meus amigos que trabalham ou já trabalharam com o Alonso são unânimes em elogiar seu método de trabalho, que deve ser muito bom mesmo, a julgar pelo lindo resultado de suas coreografias em cena.

A direção musical, a cargo de PAULO NOGUEIRA, também é excelente.

E o que falar do cenário de um craque, como ROGÉRIO FALCÃO, que também ajuda a enriquecer os trabalhos assinados por Charles e Claudio? Como sempre, Rogério cria cenários brilhantes, lindos e funcionais, o que encanta e facilita a percepção dos espectadores a respeito dos espaços em que as cenas transcorrem. Neste espetáculo, não é diferente.

Os figurinos de MARCELO PIES, outro veterano da equipe dos “meninos”, é ótimo.

É inaceitável assistir a um musical e não se conseguir ouvir bem, com clareza e distinção, todos os sons produzidos, quer nas falas, quer nas interpretações das canções. Trata-se de uma tarefa bastante árdua, mas que não é problema para o competente MARCELO CLARET. Que som puro e cristalino, meu Deus!

PAULO CÉSAR MEDEIROS, ou, simplesmente, o Paulinho, é responsável, mais uma vez, por uma luz irretocável.

BETO CARRAMANHOS seria um mágico, ao transformar as pessoas em personagens, se essa transformação não fosse fruto de muita pesquisa, estudo, pratica e talento. Só a transformação de Gottsha em Smitty já valeria todos os elogios ao trabalho do Beto.

Uma produção da envergadura e COMO VENCER NA VIDA SEM FAZER FORÇA só chega ao palco da maneira como chegou, e continuará chegando ainda por muito tempo, graças, também, a um exército de técnicos, que, nos bastidores, se revezam em várias atividades, para que o público possa aplaudir um bom espetáculo. Nessa faina, de garantir que o espetáculo chegue a uma estreia e se mantenha em cartaz com sucesso, não podem ser omitidos dois nomes: TINA SALLES, na coordenação artística, e EDSON MENDONÇA, na produção executiva.

Faltou alguma coisa a ser dita? Esqueci-me de citar o nome de alguém? Acho que não.

Nesta semana, encontrei uma pessoa que me disse não ter gostado do espetáculo. Depois de um esforço muito grande para não espancar o infeliz (brincadeirinha), pedi que o cidadão se justificasse. Ele havia brigado com a namorada, perdido o emprego, sido diagnosticado como bipolar e comido um “podrão” que não “caiu bem”. Poderia ter gostado de alguma coisa naquele dia? Nem com muita força.



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